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Ser ajudado para ajudar:somente quando ajudo me sinto realmente ajudado

quando ajudo é quando me sinto ajudado

Oi, Paz!

Ser ajudado para ajudar

Somente quando me deixo ajudar é que realmente consigo ajudar, ou então, somente quando ajudo me sinto realmente ajudado. Esta é uma das afirmações fundamentais da vida, mas algumas experiências têm o dom de elucidar, de clarear esta realidade de forma brilhante. Aconteceu numa peregrinação um fato que ilustra isto.

Tínhamos alguém do grupo um tanto debilitado, que deveria caminhar com passos lentos. Resolvemos que faríamos um trecho do caminho a sós. Seria uma experiência importante, poder sair e seguir o caminho cada qual no seu ritmo e ainda uma oportunidade de encontros inusitados. Com este que estava com problemas, conversando na noite anterior, combinamos algumas questões: ele deveria sair mais cedo, ir a passos lentos. Comprometi-me a levar-lhe um pequeno lanche, visto que poderia, ainda muito cedo, não encontrar um café aberto (vale dizer que a providência divina se antecipou e, depois, soube que encontrou um bar e tomou café!). Assim se fez. Pessoalmente gosto de cumprir o que trato, tenho sempre em mente um lema que me acompanha, por influência materna: “Ninguém está obrigado a tratar, mas a cumprir o que trata”. Desta forma, para mim é sempre muito importante cumprir os tratos. Isto tem sido causa de muitas alegrias, sem dúvida, mas de algumas dificuldades no tocante à experiência do “compromisso como graça”.

Sem problemas acordei mais tarde, tomei no bar o café, preparei o lanche que deveria levar e coloquei-me a caminho, para encontrar aquele que saíra um pouco antes. Imediatamente pensava em alcançá-lo, mas logo que comecei o trajeto fiz as contas de quanto estaria à minha frente. O tempo que nos separava quase que chegava a duas horas. Por menos que alguém andasse, era uma distância significativa. Contas pra lá e pra cá, decidi apertar o passo. A princípio achava perfeitamente possível que o encontrasse, mas logo depois esta certeza foi dando lugar a dúvidas. Aí começam os raciocínios: em primeiro lugar pensava em como cumprir o prometido, afinal era um lanche, precisaria levá-lo, fazê-lo chegar ao destino… Logo em seguida começo então a pensar: um compromisso existe quando existe reciprocidade. Se eu devia levar o lanche, ele deveria esperar pelo lanche. Isto me levou a buscá-lo em cada sombra, pensava encontrá-lo sentado, esperando pelo lanche ou qualquer outro tipo de ajuda.

Nestes momentos já estava  eu consciente de que se nada de anormal tivesse ocorrido com ele,  não o encontraria. De alguma forma fiquei um tanto angustiado pensando na fome do outro, na impossibilidade de cumprir o que havia prometido, enfim: eu fracassaria no desejo de ajudar, de ser útil e leal. Depois de algum tempo assim, diminuí o passo e comecei a tranqüilizar-me, pois acreditava que seria perfeitamente compreensível minha atitude.

É claro que isto se deu depois de alguma luta. A partir da decisão tomada, meu caminho voltou a ser feito nos passos “humanos”, pude sentir e contemplar com serenidade tudo o que acontecia a meu redor, enfrentar os medos, os sentimentos contraditórios. Senti uma paz e uma realização impressionantes. O céu azul, o horizonte como única linha à frente foi fascinante. Pude rezar, rezar pelo bem dos outros, pelo bem daquele que não conseguia alcançar, de todos aqueles que estavam distantes…, fora de minhas possibilidades de oferecer algo, rezei pelos ausentes. É interessante como se tornaram tão presentes, apesar das distâncias físicas que nos separavam.

Nesta situação acontece a ajuda inusitada para mim: aproximam-se dois ciclistas e, diminuindo o ritmo de suas bicicletas, puxam conversa. Achei muito estranho isto: ciclistas diminuírem o ritmo e conversar? Eram portugueses e foram atraídos pela bandeira do Brasil que identificava nosso grupo. Depois de algum tempo de conversa estavam prontos para partir. Neste momento ocorreu-me a idéia de pedir-lhes um favor: de fazer chegar à frente o lanche que eu devia entregar ao companheiro (aquele que come o mesmo pão) que não consegui alcançar. Achei uma coisa interessante isto. Arrisquei dizendo: se o encontrarem o lanche é dele, senão vocês o comam, sem preocupação e assim todos podemos ser felizes. Não queria sobrecarregá-los com um “compromisso” que era meu, por isso disse: “se não o encontrarem, comam tranqüilamente o lanche”. Preciso ajudar as pessoas a entenderem o que Deus tem me feito: aprender que é preciso sim cumprir o trato, mas isto é sempre dom, não peso. Eles se dispuseram e seguiram caminho.

Neste momento entendi uma coisa fundamental: para fazer o bem preciso estar aberto à providência, deixar-me ajudar para prestar verdadeira ajuda, confiar, descobrir que não sou o único bom, leal, amigo, mas que em cada ocasião Deus suscita outros. Entendi que numa obra cada um tem uma parte, mas quem organiza toda a ação supera-me. (São Paulo fala disso quando nos lembra: “um semeia, outro rega… importa Deus, que faz crescer…”) Meu desejo, meu empenho não são inúteis, mas não são capazes de cumprir todo percurso. Ainda que ultrapassasse os limites humanos não conseguiria chegar ao outro. Decididamente não fiz acusações de que deveria ter me esperado. Simplesmente aceitei que a situação se resolvesse assim. Como foi boa esta “relativização” de mim, de meu compromisso, de meu empenho. Isto me deixou livre, feliz, aberto, capaz de enxergar possibilidades que não veria normalmente.

O desfecho? Os ciclistas passaram por todos os que iam à frente. Sempre que encontravam uma bandeira brasileira falavam dos que estavam atrás e perguntavam pelo destinatário do lanche, que chamavam pelo nome, visto haver lhes indicado como era e como se chamava. Isto foi um dado interessante. Imagino exatamente as cenas. No fim, encontraram aquele que procuravam e lhe entregaram o lanche. Fiquei surpreso e feliz e percebi que a obra tornou-se muito mais grandiosa do que poderia eu imaginar. O pão transformou-se em verdadeiro alimento, trouxe consigo um sinal da providência.

Explico-me melhor: imagine o que significa (e o que significou concretamente) estar num trecho chamado de “solidão” e alguém gritar pelo seu nome, encontrá-lo e entregar-lhe um lanche… Deus fez o que eu não podia: deu-nos a experiência de que em nenhum momento nos esquece, que nos conhece e literalmente nos chama pelo nome, que não nos deixa faltar o necessário, mas que é providente, que suscita “estrangeiros’, os torna próximos e portadores da graça. Nunca imaginei que um lanche pudesse revelar isto, nunca imaginei que isto pudesse ajudar-me tanto.

No fim do percurso nos encontramos todos no albergue previsto. A troca de experiências deu-nos a perceber muitas coisas. Particularmente fiquei maravilhado com o que Deus revelou-me neste dia, com o que fez com todos do grupo, como foi fiel e ajudou-nos cada qual naquilo que mais precisava. Sobretudo aprendi, de uma forma muito simples, a confiar que Deus sonda meus propósitos e os faz chegar a bom termo, que me ultrapassa não para superar-me no sentido mesquinho da palavra, mas para dar-me experiência de que verdadeira ajuda não se dá só quando faço ao outro, mas sobretudo quando me deixo ajudar. Deus supera-me para meu próprio bem: fazendo aos outros, faz em mim, faz para mim, sacia-me. Amando-me, dá-me possibilidade de amar, de superar distâncias que seriam “humanamente” impossíveis. Partilhei com “estrangeiros” a alegria de ajudar, visto que eles se sentiram importantes, fizeram questão de cumprir a parte que lhes tocou, se doaram, conheceram todos os brasileiros e souberam o que fazíamos aquele dia. Com sinceridade rezei por eles, para que também eles pudessem descobrir essa alegria. Creio que Deus, por tantos caminhos e outros meios fez também por eles grandes coisas. No fim, tudo era para ser um pequeno lanche… Foi!  E foi muito mais que isto.

Deus nos abençoe!

Pe. Ricardo

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